O Brasil é um país marcado por totalitarismo e muita corrupção ao longo de sua história. Desde a “descoberta do Brasil”, somos saqueados e idiotizados. A nossa política de cada dia sempre foi realizada em meio a desvios da coisa pública e exploração da massa trabalhadora. Bem, o que mudou nesses 500 e poucos anos? Somos mais tecnológicos, temos aparelhos celulares por todos os cantos, não sabemos mais o que fazer com tantos deles, com tantos chips, com tantas promoções no mercado da tecnologia da informação… temos a internet, agora somos conectados, linkados uns aos outros, interconectados esperando lançamentos, hoje vivemos no aguardo frenético do inédito, sob a ameaça do grande tédio da falta de novidades…
Alguém algum dia, em algum lugar rico do mundo, imaginou que o alcance da tecnologia seria o fim da miséria, o fim da fome… mas o celular não deu o emprego, a internet não pagou a janta… e continuamos sendo chamados de sub por todos os cantos por muito tempo… aí alguém teve outra brilhante idéia: mudar o nome da nossa miséria. Agora não somos mais subdesenvolvidos, somos em desenvolvimento, e o Brasil não é mais o país do futuro, agora é o país dos processos, o país do gerundismo, das promessas que não se cumprem. Agora vamos estar processando nossa pobreza, nossa desonestidade, todos os nossos problemas vão estar em processo de solução… quem vai estar solucionando? Aí, ninguém sabe, ninguém viu… Que país é esse? É, esse mesmo. Tão rico e tão pobre. Tão generoso e tão desrespeitado. Não temos subnutridos, estão todos em nutrição… não temos subempregos, estão todos se empregando… e nem somos mais subinformados, somos maquiados e idiotizados, como foi no início.
Lendo um texto sobre a ditadura militar esses dias, percebi como até pra fazer revolução nesse país você tem que estar acima da média da miséria e da idiotização, e tem que saber fazer política. Até pra ser mártir é preciso saber fazer a boa política do pé de meia pro futuro. A massa medíocre brasileira aprendeu muito bem a não contestar nada, a não reclamar de nada, a não ser vingativa, a permanecer mansa e pacífica, pois os que reclamarem pagarão caro, é esse o senso comum por aqui… quem não é visto não é lembrado, quem fala demais dá bom dia a cavalo, e os que permanecerem conservando a paz da miséria serão recompensados com a sobrevida de gozar de sua própria miséria, sem ser perturbado em nada, somente na hora dos impostos, é claro, que nada é perfeito nessa vida. Mas tudo isso pode ser compensado com um bom samba, com um bom forró, com um bom carnaval… com uma boa pizza, e até com um celular novo.
Mas… voltando aos anos rebeldes… os rebeldes foram nada mais nada menos que os direitistas de hoje, que os direitistas de antes de ontem. Nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Dirceu, José Serra, José Genoíno, Dilma Roussef, Franklin Martins, Fernando Gabeira (oposição), Delfim Netto (um dos signatários do AI-5 que hoje apoia Lula), nomes de antes e agora, não respectivamente, de direita e de esquerda. Todos bem estruturados e bem politizados. Podemos romantizar e dizer que o Brasil honrou seus libertadores, mas não poderíamos encaixar Delfim Netto nessa. Delfim Netto, que por sua vez, está em paz consigo. Poderíamos encaixar nomes que salvaram o Brasil no passado e que escandalizaram o Congresso e a nação anos depois, e que também estão em paz consigo. Nesse país que sofre de amnésia, o herói do passado pode ser o vilão do futuro e vice-versa, e tanto faz, e pouco importa, estamos em paz conosco… O legislativo vai mal, o judiciário vai mal, o executivo não está nada bem e a harmonia jaz na constituição; pra educação e saúde não há legenda ainda… vamos acreditar que estamos melhorando, que estamos nos educando, que estamos nos tratando, que estamos em processo, e vamos nos esquecer que estamos nos enganando, até quando?
Normalmente não escrevo aos Domingos, mas hoje senti um “ardor” em meu coração, uma vontade de expor meus pensamentos, gritar como um louco, declamar poesias como um apaixonado. Deu vontade de compartilhar com os leitores minhas angústias, medos e frustrações, mas como esse espaço é para bem mais que isso, deixarei apenas um poema que “mexe” comigo.
“Vi um homem chorar porque lhe negaram o direito de usar três letras do alfabeto para fins políticos.
Vi uma mulher beber champanha porque lhe deram esse direito negado ao outro.
Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritos as três letras, que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas, na impossibilidade de rasgarem as próprias amadas.
Vi homicídios que não se praticaram mas que foram autênticos homicídios: o gesto no ar, sem consequências, testemunha a intenção. Vi o poder dos dedos. Mesmo sem puxar o gatilho, mesmo sem gatilho a puxar, eles consumaram a morte em pensamento.
Vi a paixão e todas as suas cores. Envolta em diferentes vestes, adornada de complementos distintos, era o mesmo núcleo desesperado, a carne viva;
E vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e jogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.
Vi os empregos da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário. Se ela é jogo, como pode ser pura…? Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes?
Vi discursos…”
Carlos Drummond de Andrade (Jornal de Brasília, 15/08/80 – Caderno Cidades).
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